O Diário do príncipe
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“Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, ‘fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te’. Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu despejo whisky para cima dele e inalo fumo de cigarros. E as putas e os empregados de bar, e os funcionários da mercearia nunca saberão que ele se encontra lá dentro. Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, ‘fica escondido, queres arruinar-me? Queres foder-me o meu trabalho? Queres arruinar as minhas vendas de livros na Europa?’ Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite, por vezes, quando todos estão a dormir. Digo-lhe: Eu sei que estas aí, por isso, não estejas triste. Depois coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo, e dormimos juntos assim, com o nosso pacto secreto. E é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?” Bukowsky.
“Tinha pés delicados e pequeninos. Suas pernas eram bem definidas, bem brancas e lisas, torneadas talvez, mas nada exagerado. Um quadril não muito largo, uma cintura fina e delicada, seios pequenos, firmes e bem desenhados… Adorava os seios dela. Tinha uma pequena curva em seu queixo. Seus lábios eram carnudos e vermelhos, ficavam sempre esplêndidos junto ao seu sorriso tímido e sem graça. Um nariz fino e pontudo, nada muito empinado, e seus olhos… Ah, seus olhos. Grandes esmeraldas verdes. Olhar medroso, mas sincero. Com volumosos cílios e uma forte sobrancelha. O rosto era meio oval, suas bochechas eram bem coradas. Aquele cabelo cor de fogo, meio liso, meio cacheado, brilhante e sedoso, o cheiro do produto que o lavava sempre exalava no ambiente, enfeitiçando quem ousasse atravessar seu caminho. Eu tentava permanecer sereno e indiferente, mas dentro de mim, naquele exato momento, acontecia uma guerra terrível de meus sentimentos conta a razão. A razão vence, mas até quando? Os traços de meu pincel eram lentos, com grandes pausas arrastadas, e não, eu não costumava me demorar em minhas obras, todavia, ela… Ela merecia um cuidado especial, um detalhe a mais, uma cor a mais, um olhar a mais. De todas as musas em que já pintei, nenhuma se dispôs tamanha beleza quanto a de minha estrela. Escorria suor em meu rosto, minhas mãos frias tremiam em disputa com a tremedeira do resto de meu corpo. Meu coração pulsava mais forte que o de um cavaleiro prestes a morrer na batalha. Eu me esforçava extremamente para não prejudicar a pintura. Ela incendiava toda a minha alma. Eu a amava, amava, amava, amava. Saboreava cada segundo daquele paraíso enquanto podia, quando podia. Até o fim. O fim onde seus servos a vestem novamente e seu senhor me entrega algumas moedas de ouro. O fim quando não só ela se vai, mas também a pintura, e grudado junto á aquilo, vai-se meu amor, meu coração, minha razão e juízo. Vai-se toda a minha alma, sobrando só um pobre pintor sujo e sem herança, jogado aos vermes nojentos de seu inferno podre e sem sentido, esperando mais uma falsa estrela se desnudar para que ele faça seu serviçinho barato. Aqui só fica o homem, com ela se vai o artista.” Diário do príncipe, sou só mais um plebeu.
“Já era fim de setembro. As arvore se enchiam de flores de todas as cores e formatos. Os troncos, na maioria, possuíam declarações de casais apaixonados, corações, nomes, datas. A grama tinha um tom verde intenso que brilhava com o sol fraco de fim de tarde. O céu era meio rosa, meio avermelhado, meio azul. Ao redor, vi uma mulher sorridente empurrando um carrinho de neném, seus cabelos castanhos, escondidos atrás das orelhas, se remexiam levemente conforme o vento passava. Vi também dois senhores de camisa xadrez conversando em um banco de madeira de baixo de uma arvore grande. Já estava caminhando de volta pra casa, pacato, com passos lentos, assim como os que vão sem querer chegar, foi quando a vi, sentada no banco abaixo do ipê branco, serena e leve. Ela usava um vestido branco que ia até os joelhos, era malha e renda, as alças permaneciam caídas em seus ombros frágeis. Sua pele era clara como a nuvem de um dia de sol forte; seus cabelos louros e cumpridos se desajeitavam com o vento, fazendo com que mechas finas encostassem em seus lábios rosados, quase tanto quanto as maçãs de seu rosto. Seus olhos eram azuis como o céu, brilhavam como a lua, encantadora e distante. A moça olhava para todos os lados, era difícil decifrar se estava perdida ou admirando as obras da primavera. Sua beleza era tanta que dava vontade de sorrir, apenas por vê-la ali, parada. Mas com alguns minutos de observação, um indecifrável aperto no coração surgia. Meus olhos se enchiam de lágrimas, minha mente não possuía mais controle de meus pensamentos, sentia uma espécie de pena, afeto… algo além de qualquer coisa possível de ser descrita ou ilustrada. Vi-me andando em sua direção, tonto, hipnotizado por seus movimentos brandos. Sentei-me ao seu lado sem citar uma só palavra, apenas fitando-a, tentando entende-la. Ela olhou para mim, um demorado sorriso surgiu naquele rosto cansado. Suas mãos se dirigiam aos meus cabelos, bagunçados e úmidos. Seus olhos se encheram de lagrimas, seu sorriso se ampliava enquanto brincava com minhas mechas encaracoladas. Parecia uma criança, um anjo, e era tão doce, tão meiga… Eu sorria tímido, juntamente a ela. Então um homem de jaleco branco se aproximou de nós, uma de suas mãos carregava uma rosa branca, a outra se estendia a moça. Ela segurou em seu braço, levantou-se e olhou mais uma vez para mim. Pegou a rosa na mão do homem lentamente. Seu rosto agora se encharcava com as lagrimas escorridas daqueles olhos azuis, seu braço se esticava acima de mim, então deixou sua rosa cair, cair sobre meu colo, propositalmente. Depois ela se virou e saiu andando, abraçada no braço do homem de jaleco branco, apontando para as flores do parque, que disputavam quem possuía o cheiro mais suave. E ela se foi carregando consigo o sol, as flores vagantes, meu juízo. Deixando-me apenas aquela rosa frágil, única e temporária. Assim como ela. Assim como eu. Assim como a vida.” Diário do príncipe, rosa branca.
Tu não sabes quem eu sou, mas eu sei quem tu és… E só preciso de um minuto da tua atenção. Espero que saibas a sorte que tens. O quanto eu gostaria de estar na tua pele. Poder estar na mesma cama que ela todas as manhãs. Ajudá-la a acordaEspero que saibas que ela não te vai falar enquanto não lavar os dentes. Não é por mal… é por medo de perder o encanto aos teus olhos. Que a consideres um ser humano comum. Espero que saibas que ela gosta de aproveitar cada raio de sol, e que o café a deixa mal disposta. Que ela escolhe a roupa que vai vestir na noite anterior, só para poder ter mais cinco minutos de sono pela manhã. Que o despertador toca cinquenta vezes até que se levante, e que mesmo assim, consegue chegar a horas. Quero também dizer-te que ela adora histórias do fantástico. Mas não de terror! Que é capaz de saber o nome de todas as personagens de um livro antigo, mas que não se vai esforçar para decorar o nomes de todos os teus amigos à primeira… Porque ela… ela é que sabe de si. Tu nunca serás uma sorte para ela. Sorte é poderes tê-la na tua vida. Sabes, ela não é romântica por natureza, mas uma demonstração espontânea da tua parte vai fazê-la fraquejar. Porque ela é segura e doce ao mesmo tempo. Ela não sabe cozinhar, mas vai esforçar-se para fazer o teu prato preferido. E se não estiver bom, ela vai rir-se do falhanço, em vez de corar. E quando ela ri… quando ela ri eu tenho vontade de chorar. Não de tristeza, mas porque cada gargalhada é como uma nota musical que toca ao coração e me faz querer dançar. Ela é tudo o que eu queria e nunca soube que tive. Aprende que a arritmia que sentes com ela é normal. E que a falta dela é um vazio igual à morte. Espero que sejas tudo aquilo que eu nunca fui. Espero que a trates bem. Porque se lhe partires o coração vais perdê-la para sempre. Pudesse eu ter lido o futuro… Só de mim.
Ah, se eu soubesse, não andava na rua, perigos não corria. Não tinha amigos, não bebia, já não ria à toa. Não ia enfim, cruzar contigo jamais. Ah, se eu pudesse, te diria, na boa, não sou mais uma das tais. Não vivo com a cabeça na lua, nem cantarei ”eu te amo demais”. Casava com outro, se fosse capaz. Mas acontece que eu saí por aí, e aí, larari, larari, larara… Ah, se eu soubesse, nem olhava a lagoa, não ia mais à praia. De noite não gingava a saia, não dormia nua. Pobre de mim, sonhar contigo, jamais. Ah, se eu pudesse, não caía na tua conversa mole outra vez. Não dava mole à tua pessoa. Te abandonava prostrado aos meus pés, fugia nos braços de um outro rapaz. Mas acontece que eu sorri para ti, e aí, larari, larara, lariri… Chico Buarque.
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